quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Um presente (atrasado)

Este "pequeno" texto (=P) é um presente para uma amiga. Como é muito bem explicitamente perceptível, alguém muito, muito especial em minha vida. Vou colocá-lo aqui porque ela nunca entra no msn para que eu possa entregá-lo, e quando entra, ela não fala direito com você ou some sem se despedir. É difícil ser amiga de pessoas populares. Mas enfim, espero que ela passe por aqui e veja ;x
(Ah minha frô, desculpa pela demora. xD Te amo <3)>

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Aquele dia nunca foi apagado por minha memória, tão falha e autodestrutiva. Era mais um dia de colégio, outro dia monótono que provavelmente gastaria na frente da TV. Nessa época, não tinha tantos amigos. Onde eu estudava, nenhum, para ser sincera. Só o fato de respirar lá dentro me entristecia e desanimava, e isso se repetia todos os dias, 5 vezes por semana. Eu era um peixe fora d’água.


Voltando da escola, passeava o olhar distraído. Notei um fato estranhamente diferente do usual: as ruas sujas de papéis que se espalhavam pelo chão. Como uma boa curiosa, apanhei um e li o folheto, que dizia:


DONA DAIANE: clarividente, quiromante, vidente.

Leio seu futuro, joga-se búzios, faz-se amarração para o amor, etc.

A primeira é grátis!


Olhei em volta e vi que os postes estavam repletos da mesma propaganda. Meus olhos, como se farejando, procuraram por alguma placa, ou coisa do tipo, que indicasse o lugar. Quando dei por mim, ri do meu interesse pela tal clarividente.


- Mas que besteira, até parece que é verdade.


Continuei meu caminho, jogando o panfleto no lixo do prédio mais próximo. Só que desta vez, andei mais atenta, ainda sem sanar minha curiosidade, mas disfarçando-a e, para minha surpresa, avistei uma placa com o nome da dita cuja “Dona Daiane”. Parei bem em frente e fiquei parada por um instante, observando. Reli o trecho “A primeira é grátis”, que também estava na placa da casa, e me fez pensar “O que eu poderia perder? É de graça mesmo...” e de repente a porta se abriu. Uma mulher com roupas roxas esquisitas, de cabelo loiro e ondulado veio calmamente até mim.


- Bom dia, sou a Dona Daiane. Não tenha medo, pode vir que já tenho experiência nisso. Sabia que você viria. Venha, pode entrar. A primeira é grátis.


Eu respondi-lhe o cumprimento e me apresentei. Pensei logo que ela fosse realmente vidente, dando-lhe credibilidade por antecipar minha vinda, mas depois vi que ela podia apenas ter olhado pela janela. Sua casa tinha um aspecto misterioso, luzes fracas, velas, incensos, imagens e itens exóticos, que nunca vira antes. Isso me assustou de início, mas a curiosidade – e o fato de saber que quando chegasse em casa não teria nada além da televisão - foi a força maior que me impulsionou a continuar.

Sentamo-nos numa mesa bem pequena, quadrada, coberta com um pano vermelho, e ela pegou um baralho e pôs a sua frente.


- O que você gostaria de saber? Lembre-se, você só tem uma pergunta grátis. Quando quiser mais informações, terá que pagar.


- Tudo bem, só vou fazer uma por agora.


Depois de pensar e repensar, decidi o que perguntaria. Embora sempre tenha sido muito feminista, de discurso independente e “do contra”, tudo o que eu queria – como todos - era uma pessoa especial, um alguém em quem eu confiasse e que confiasse em mim. Uma pessoa com quem gastar meu tempo, que me traria felicidade e que eu a faria feliz.


- Quero saber se vou encontrar uma pessoa especial.


A Dona Daiane começou uma meditação, pediu para segurarmos as mãos e para mentalizar a pergunta, jogando-a para o cosmo, para que o oráculo divino pudesse nos trazer a resposta. Embora aquilo me parecesse bastante ridículo, já que estava sentada e já tinha feito a pergunta, não custava nada ficar até saber a resposta.


A mulher, tirando minha mente de meus devaneios, e me assustando, começou a fazer gestos bruscos e estranhos, soltando minha mão por um impulso.


- Branca e naturalmente iluminada como a lua,

De forma discreta, chamando atenção.

Pretos e enfeitiçados olhos,

Que remetem a uma profundidade e a um temor em se expor,

Natural de toda boa criança-mulher.

Por sua vez, os cachos envolventes

Me trazem a mente uma ousadia disfarçada,

A volta que faz para se esconder,

Suavidade no ser, no amar e no expressar

Mesmo que por medo de muito arriscar.

As maçãs - sempre as lembro rubras -,

Me lembram do quão espontânea,

E também contida me parece.

De gestos polidos, mas não tão firmes

Quanto na verdade são na essência.

Desleixados ombros, um pouco atrapalhados,

E carregados de certa acomodação.

A voz é longe, e nela percebo outro dueto de

Uma mente fantasiosa, com uma atenção especial com quem se fala.

As mãos são de receptividade pura,

Por onde sinto todo carinho ser transmitido

Embora tenha receio em não ser correspondido.

A mente é, como a de qualquer outro,

Um joguete de antagonismos:

Vejo muita confiança e insegurança,

Uma certa empolgação combinada com uma morbidez,

A presença do tédio é visível,

Mas tem também alguma disposição.

Recorre a mim um sentimento de solidão,

Mesmo estando rodeada, e com muito amor a oferecer.

O coração... Me vem uma visão um pouco embaçada,

Mas recordo-me de querer sempre extrapolar,

De transbordar, de dominar - o que realmente fazia -.

Você confiará nela, mesmo que porventura não se simpatizem de imediato, e não entendam o porquê de ter tanta afinidade uma pela outra. Vão se colocar como as duas faces opostas de uma só moeda, mas o tempo revelará surpreendentemente que são parecidas em alguns aspectos.

O que me é mostrado também é que você fará parte da história dela, e ela da sua, e a amizade dela te ajudará a amadurecer, e será para você um refúgio, um abrigo, onde você se sentirá sempre acolhida e bem-vinda.

Saí de lá maravilhada. Cheguei em casa e liguei a TV, mas não prestava atenção à ela. Só me vinha na cabeça como seria essa pessoa. A esperança e as belas palavras que ela falara convenceram-me e eu tentava imaginar como seria esse alguém especial. Tentava recompor o discurso dela, e passavam por mim sentimentos de expectativa e de esperança. Passavam por mim sentimentos muito confusos:


De admiração por tudo o que não sou,

E de repulsa por tudo o que não queria ser.


Dias depois desse estranho fato esbarrei-me com uma menina no colégio. De pele branca, de cabelos pretos e ondulados, e de olhos igualmente pretos e profundos. Não voltei à Dona Daiane para agradecer-lhe, mas dei total credibilidade a ela, pois esta me guiou para uma das pessoas mais especiais que conheci, e que me abriu muitas portas para uma nova vida, para um novo olhar.


E agradeço profundamente a essa pessoa, que me traz tantas alegrias, e que me ensinou que é possível amar sem querer algo em troca, que é preciso respeitar as diferenças – e que estas são fundamentais para a vida ter mais cor -, que é preciso ser mais tolerante e saber perdoar e pedir perdão, entre tantas outras coisas que já aprendi com ela. E que continua me ensinando a cada dia que passamos juntas.




segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Depois, ao amanhecer

- Você sentiu?

- Sentir o quê?

- Você não sentiu..

- Sentir o quê? Ah, qual seu nome mesmo?

- Me chamo Katie. Tenho que ir, já está na hora de trabalhar.

Desenrolando-se dos lenções que envolvem seu corpo, sai da cama e põe a roupa, jogada aleatóriamente pelo chão do quarto de mais um estranho. Cansada desse cilo despede-se, entra no seu carro e segue o rumo do trablho. Entretanto sabe que isso voltará a se repetir, "até que encontre o par perfeito", é o que pensa.